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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Café com pão

Dia desses estava vendo um seriado estadunidense - Big Bang Theory - e um dos personagens tem fixação por trens. Tanto é que preferia cruzar os EUA de leste a oeste por terra a fazê-lo de avião.
No Brasil não temos mais essa ligação com os trilhos, locomotivas e seus inúmeros vagões. Já tivemos e, por quase um século, a matriz dos transportes era ferroviária. Só depois, na década de 1950 é que começamos a substituir tudo pelas rodovias e seus caminhões. Não creio que cabe aqui discutir se foi uma opção política boa ou ruim, ou se para alguém foi bom ou ruim. Indiscutível é que ainda fica uma certa nostalgia, especialmente entre os mais velhos.
Eu, particularmente, só me lembrei disso porque vi que o Arquivo do Estado de São Paulo lançou mais uma exposição virtual. A proposta é bem interessante, pois busca retomar temas de relevância para a história de São Paulo e do Brasil ao mesmo tempo em dá visibilidade ao fantástico acervo documental (principalmente fotografias e documentos escritos) sob a guardo o Arquivo. E como as exposições são montadas pelos serviço educativo há sempre textos muito acessíveis e propostas para atividades em sala de aula.

Para os interessados, clique AQUI.


Além disso, essa exposição me lembrou de duas obras primas da cultura brasileira que tem como mote as estradas de ferro e expressam de forma sublime a relação que as pessoas tinham com essa máquina que vencia vales e montanhas, carregava pessoas e mercadorias, aproximava o que era longe. Para alguns era o símbolo do "progresso", para outros era o jeito mais rápido de se rever a família, os amigos, a amada.
Em 1936 o recifense Manuel Bandeira escreveu seu famoso Trem de Ferro, um poema que reproduz o universo das viagens de trem em seu ritmo e no próprio som das palavras. O mais interessante é que o poeta, talvez involuntariamente, nos lembra que o trem era uma realidade nacional e preenche essa viagem de elementos regionais únicos. Em Pernambuco o trem não cortava cafezais, mas canaviais e pastos.
Trem de ferro 
Café com pão
Café com pão
Café com pão
Virge Maria que foi isso maquinista?
Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)
Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô...
(café com pão é muito bom)
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...
Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
(trem de ferro, trem de ferro)
Como se não bastasse a beleza do poema, tempos depois Tom Jobim o musicou. No vídeo abaixo, a homenagem de mestre da bossa nova como parte do documentário O Poeta do Castelo, de 1959. (No final ainda há o próprio Bandeira declamando os famosos versos de Vou me embora pra Pasárgada.


Outra obra prima com o tema "trem" é O Trenzinho do Caipira, de Heitor Villa-Lobos, e que faz parte da peça Bachianas Brasileiras no. 2. De modo semelhante ao poeta, Villa-Lobos reproduz o som do trem com os instrumentos da orquestra e dos joga de cabeça na atmosfera das ferrovias. Se você fechar os olhos poderá se imaginar viajando suavemente pelo interior de São Paulo ou Minas Gerais. Uma deliciosa viagem de pouco mais de 4 minutos.


Obviamente, esqueçam as imagens. O que importa é a música executada pela Orquestra Sinfônica de Londres.

2 comentários:

  1. Interessante que vi esse episódio na semana passada e fiquei com inveja do Sheldon e tive o mesmo pensamento. O de não podermos fazer isso aqui no Brasil. Apesar de mais cansativo, deveria ser muito mais legal.
    Uma pena que não exista essa alternativa para nós, brasileiros...
    E só mais uma coisa. Você se esqueceu de Trem das Onze! Como pode se esquecer de Adoniran, Hörner!
    P.S.: Sexta estaremos de volta. Ou mais cedo, quem sabe...

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  2. Mans,

    Ainda dá para fazer passeios de trem no Brasil. Não rola viagem regular, mas dá para ir de Curitiba até Antonina, se não me engano.
    Você tem razão, Trem das Onze também é um "clássico ferroviário". Porém, Adoniran é outro contexto e acabei ficando com dois exemplos modernistas... uma pequena homenagem aos 90 anos da Semana de 22. :)

    Abraço

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