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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Os horrores da guerra, de qualquer guerra

"Stormtroops advancing under a gas attack", de Otto Dix
Quando preparo uma avaliação vou juntando todo tipo de material que tenho para depois selecionar o que julgo mais apropriado. E com frequência sobram coisas bem interessantes.
Desta vez, ao formular a prova de recuperação da 3a. série restou em minhas mãos um trecho do livro Os três camaradas, de Erich Maria Remarque (o mesmo autor de Nada de novo no front). A passagem descreve uma lembrança do personagem a respeito da Primeira Guerra Mundial, fazendo referência às trincheiras e à guerra química.
“1917. Flandres. Middendorf e eu tínhamos comprado uma garrafa de vinho tinto. Com ele pretendíamos fazer uma pequena comemoração. Isso, entretanto, não nos foi possível. De madrugada os ingleses desencadearam um pesado fogo sobre nós. Ao meio dia, Köster foi ferido. De tarde caíram Meyer e Deters. E ao anoitecer, quando pensávamos poder ter um pouco de sossego e abrir a garrafa, veio uma onda de gás e se infiltrou pelos abrigos subterrâneos.
É verdade que nos tínhamos munido de máscaras no devido tempo, mas a de Middendorf estava estragada. Quando ele notou o defeito, já era tarde. Até que a arrancasse do rosto e achasse outra perfeita para substituí-la, já havia inalado excessiva quantidade de gás, e vomitava sangue. Na manhã seguinte, ele estava morto, com o rosto manchado de verde e negro. O pescoço estava todo arranhado pelas unhas na desesperada ânsia de abri-lo para conseguir um pouco de ar para respirar.”

(Erich Maria Remarque. Os três camaradas. Rio de Janeiro: Record, [s.d.]. P. 8)
Este excerto é bem impactante como um todo, mas a última frase eleva a tragédia humana a outro patamar. Não por acaso Remarque é reconhecido como um autor pacifista e crítico da visão de que a guerra faz heróis. Por sua vez, fica fácil imaginar porque Hitler e sua turminha mandaram queimar os livros do escritor e ex-soldado.


A propósito, sobre a guerra química e o uso de gases tóxicos, postei anteriormente uma sugestão de leitura AQUI.

Se você gostou da imagem que ilustra o post, veja outros trabalhos de Otto Dix, também um artista engajado em denunciar os horrores da guerra e considerado um expoente da "arte degenerada", na opinião dos nazistas.
Clique AQUI.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Literatura e Vestibular

Literatura no vestibular sempre dá um frio na barriga, especialmente para aquelas pessoas que não são muito chegadas na leitura. Em todo caso, não basta só ler, é necessário também aprofundar a compressão sobre as obras e os autores. É aí que entram as aulas de literatura. Ou seja, não tenho nada a ver com isso!


MAS... fica uma sugestão para aprofundamento: um projeto bem interessante da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo chamado A Hora e a Vez do Vestibular que todo ano oferece aulas específicas sobre cada livro da FUVEST e Unicamp nas Bibliotecas Públicas.
Na do Ipiranga, a Biblioteca Roberto Santos, temos neste semestre as seguintes aulas ministradas pelo professor Cláudio Rosa:


Horário: 14h

Abril
    Dia 18 - Viagens na Minha Terra (Almeida Garrett)
    Dia 25 - Memórias de um Sargento de Milícias (Manuel Antônio de Almeida)

Maio
    Dia 2 - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)
    Dia 9 - O Cortiço (Aluísio Azevedo)
    Dia 16 - A Cidade e as Serras (Eça de Queirós)
    Dia 23 - Vidas Secas (Graciliano Ramos)
    Dia 30 - Capitães da Areia (Jorge Amado)

Junho
    Dia 6 - Sentimento do Mundo (Carlos Drummond de Andrade)




Programe-se!

quarta-feira, 28 de março de 2012

Valorizando a prata da casa

Hoje fiquei sabendo que um ex-aluno, Matheus Mans Dametto, tem investido na literatura. Via Twitter ele me mandou o link para uma crônica sua que foi publicada num interessante site colaborativo chamado Sobre Livros.
Como toda produção é bem vinda por aqui, aproveito para divulgar e sugerir a leitura...


Veríssimo nele!

O sol começa lentamente a se infiltrar pela janela de meu quarto e a enfrentar a resistência que a persiana vermelha faz contra esta ação monótona e bela da natureza. Meus olhos relutam em seguir a recomendação natural de se abrirem ao primeiro raio de sol. Afinal, não sou um galo que acorda ao primeiro sinal da estrela brilhante no horizonte. Digo a mim mesmo que irei dormir mais cinco minutinhos. Afinal, hoje é sábado e não tenho compromissos pela manhã que me impedem desta regalia. Quando estou quase deitando novamente nos braços de Morfeu e me entregando ao sono profundo ouço um barulho.
TRIM.
É algum de meus talheres de metal caindo no chão de linóleo da cozinha adjacente ao meu minúsculo quarto. Estranho, pois não há mais ninguém morando em minha casa. Os amigos que estava abrigando já se foram faz três dias.
(CONTINUA)

segunda-feira, 5 de março de 2012

Li e lembrei de vocês

Relendo Mario Quintana, poeta de quem gosto muito, acabei me lembrando de vocês, alunos do Ensino Médio. Vejam se estes versos fazem algum sentido para vocês.

O Adolescente 
A vida é tão bela que chega a dar medo.
Não o medo que paralisa e gela,
estátua súbida,
mas
esse medo fascinante e fremente de curiosidade que faz
o jovem felino seguir para a frente farejando o vento
ao sair, a primeira vez, da gruta.
Medo que ofusca: luz!
Cumplicemente,
as folhas contam-te um segredo
velho como o mundo:
Adolescente, olha! A vida é nova...
A vida é nova e anda nua
- vestida apenas como o teu desejo!

Se o poema não te diz nada talvez seja a hora de sair da gruta...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Café com pão

Dia desses estava vendo um seriado estadunidense - Big Bang Theory - e um dos personagens tem fixação por trens. Tanto é que preferia cruzar os EUA de leste a oeste por terra a fazê-lo de avião.
No Brasil não temos mais essa ligação com os trilhos, locomotivas e seus inúmeros vagões. Já tivemos e, por quase um século, a matriz dos transportes era ferroviária. Só depois, na década de 1950 é que começamos a substituir tudo pelas rodovias e seus caminhões. Não creio que cabe aqui discutir se foi uma opção política boa ou ruim, ou se para alguém foi bom ou ruim. Indiscutível é que ainda fica uma certa nostalgia, especialmente entre os mais velhos.
Eu, particularmente, só me lembrei disso porque vi que o Arquivo do Estado de São Paulo lançou mais uma exposição virtual. A proposta é bem interessante, pois busca retomar temas de relevância para a história de São Paulo e do Brasil ao mesmo tempo em dá visibilidade ao fantástico acervo documental (principalmente fotografias e documentos escritos) sob a guardo o Arquivo. E como as exposições são montadas pelos serviço educativo há sempre textos muito acessíveis e propostas para atividades em sala de aula.

Para os interessados, clique AQUI.


Além disso, essa exposição me lembrou de duas obras primas da cultura brasileira que tem como mote as estradas de ferro e expressam de forma sublime a relação que as pessoas tinham com essa máquina que vencia vales e montanhas, carregava pessoas e mercadorias, aproximava o que era longe. Para alguns era o símbolo do "progresso", para outros era o jeito mais rápido de se rever a família, os amigos, a amada.
Em 1936 o recifense Manuel Bandeira escreveu seu famoso Trem de Ferro, um poema que reproduz o universo das viagens de trem em seu ritmo e no próprio som das palavras. O mais interessante é que o poeta, talvez involuntariamente, nos lembra que o trem era uma realidade nacional e preenche essa viagem de elementos regionais únicos. Em Pernambuco o trem não cortava cafezais, mas canaviais e pastos.
Trem de ferro 
Café com pão
Café com pão
Café com pão
Virge Maria que foi isso maquinista?
Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)
Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô...
(café com pão é muito bom)
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...
Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
(trem de ferro, trem de ferro)
Como se não bastasse a beleza do poema, tempos depois Tom Jobim o musicou. No vídeo abaixo, a homenagem de mestre da bossa nova como parte do documentário O Poeta do Castelo, de 1959. (No final ainda há o próprio Bandeira declamando os famosos versos de Vou me embora pra Pasárgada.


Outra obra prima com o tema "trem" é O Trenzinho do Caipira, de Heitor Villa-Lobos, e que faz parte da peça Bachianas Brasileiras no. 2. De modo semelhante ao poeta, Villa-Lobos reproduz o som do trem com os instrumentos da orquestra e dos joga de cabeça na atmosfera das ferrovias. Se você fechar os olhos poderá se imaginar viajando suavemente pelo interior de São Paulo ou Minas Gerais. Uma deliciosa viagem de pouco mais de 4 minutos.


Obviamente, esqueçam as imagens. O que importa é a música executada pela Orquestra Sinfônica de Londres.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Nacionalismos Brasileiros II

O post anterior acabou me levando a reler minhas anotações. Há muito tempo tenho guardo quatro (?) "canções do exílio". Obviamente é uma brincadeira, mas não só minha. Os poetas adoram fazer referências, especialmente quando se veem engajados em alguma releitura do Brasil.
Gonçalves Dias, pai da verdadeira "Canção do Exílio" escreveu em 1843 quando se encontrava em Coimbra, estudando Direito. Olhando de longe, com saudade e inspirado pela poesia portuguesa de Alexandre Herculano e Almeida Garrett, assim se expressou:
Canção do Exílio
(Gonçalves Dias)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
O poeta modernista mineiro, Murilo Mendes, escreveu em 1930 a sua versão da Canção. No entanto, seu exílio ocorria dentro do Brasil: imerso no país real escrevia com os olhos no país que desejava.
Canção do Exílio 
(Murilo Mendes)
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
A preocupação com as influências externas, com os preços altos e a política turbulenta não apareciam nos horizontes de Gonçalves Dias. No entanto, o Brasil de Murilo Mendes ainda parecia mais suave que o de Cacaso, poeta da cidade de São Carlos (interior de São Paulo) que escreveu em 1974, imerso na Ditadura Militar.
Jogos Florais
(Cacaso)
I
Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
A água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

II
Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.

Bem, meus prezados senhores
dado o avanço da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)
Palmeiras que lembram Palmares, refúgio daqueles que lutaram contra a opressão, disputam lugar com um Brasil moderno, filho do "Milagre Econômico" da Ditadura. Saudade da terra onde a água não vira vinho, mas direto vinagre? Não parece. Mais semelhança há com o Brasil de Cazuza, do álbum Ideologia, de 1988, saindo daquela mesma Ditadura.

Brasil
(Cazuza)

Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer

A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer
Não me ofereceram
Nem um cigarro

Fiquei na porta estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito é uma navalha

Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada antes de eu nascer

Não me sortearam
A garota do "Fantástico"
Não me subornaram
Será que é o meu fim
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada pra só dizer sim, sim

Brasil
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Grande pátria desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
(Não vou te trair)

Num misto de desapontamento e esperança, Cazuza, parece ao meu ver, sepultar a  "Canção do Exílio". Aquele ufanismo (= orgulho exagerado do país) não teria mais lugar no Brasil que, para muitos, renascia depois de cerca de duas décadas de Ditadura Militar. No mesmo ano da Constituinte o músico-poeta (ou poeta-músico) apresentava também naquele álbum a música título "Ideologia", enterrando também velhos heróis...

terça-feira, 12 de abril de 2011

Nacionalismos brasileiros

Aquele post sobre os pracinhas brasileiros (AQUI) motivado por um livro de Cesar Campiani Maximiano gerou um comentário curioso. Ao contrário do que eu poderia imaginar, um ex-aluno manifestou seu interesse por canções militares e se lembrou da "Canção do Expedicionário". Eu conhecia a "Canção" um tanto superficialmente, nunca havia me preocupado em lê-la com atenção especialmente porque, admito, respeito as Forças Armadas, mas meu pacifismo é um tanto radical ao ponto de me manter a uma boa distância da temática marcial.Desta vez, intrigado pela sugestão do Krisman nos comentários, fui ler e ouvir a "Canção do Expedicionário", inicialmente para entender o que ele havia achado de tão interessante! Não sei o que ele achou interessante, mas sei o que eu encontrei.
Guilherme de Almeida
Primeiramente, não me lembrava que a "Canção" era de autoria de Guilherme de Almeida (1890-1969). Apesar de sempre nos lembrarmos de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Drummond, atualmente são poucas as referências aos demais modernistas. Almeida foi um grande poeta e grande propagandista da poesia do grupo da Semana de 1922, apesar de ser um pouco mais tradicional (ou parnasiano) que os demais. O poeta chegou a excursionar pelo Brasil dando palestras e lendo poemas para divulgar a poesia "moderna" da Semana. Daí meu espanto em ver seu nome em um hino militar, pois eu desconhecia sua participação na Revolução Constitucionalista de 1932, e suas poesias em comemoração ao IV Centenário da Cidade de São Paulo e à fundação de Brasília.
Contudo, não foi a biografia do poeta que mais chamou minha atenção. A poesia da "Canção do Expedicionário" é cheia de referências muito peculiares, a começar pela temática nacionalista ou mesmo ufanista. Este amor pela nação, pela ideia de uma comunidade cuja identidade comum a mantém unida, que de tempos em tempos resurge nos mais diversos pontos do mundo ocidental e frequentemente se reclama no Brasil de sua ausência transborda nos versos de Guilherme de Almeida. Um nacionalismo que é fundamental em uma canção militar, é verdade. Não se pode imaginar o envio de tropas à frente de batalha que não estejam plenamente identificadas com a bandeira que carregam. E o poeta, onde fica nesta história?
O modernismo paulista com sua proposta antropofágica, com seu manifesto pau-brasil, com sua defesa do olhar para as peculiaridades da própria terra, estava defendendo justamente uma arte que retomasse o Brasil, que olhasse para o Brasil como musa inspiradora. Alguns foram mais cautelosos, Almeida derramou-se em amor pela pátria. Ao expressar todo esse amor foi encontrar na literatura brasileira que ele tanto conhecia a referência no outro momento nacionalista por excelência: o Romantismo.
Creio que neste caso a referência seja óbvia no refrão da "Canção do Expedicionário":
Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá (...)
 Não há como negar a homenagem feita à "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias:
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Gonçalves Dias
Gonçalves Dias (1823-1864) escrevia sob a perspectiva de fundação de uma visão de Brasil explorando os temas consagrados do Romantismo, segundo Alfredo Bosi: a Natureza, a Pátria e a Religião. A exaltação da pátria de Gonçalves Dias manifestasse na saudade de quem estava na Europa enquanto Guilherme de Almeida escreve pensando no brasileiro que vai para a Europa em nome de um Brasil para o qual vai retornar, sem, contudo, deixar de explorar os mesmo temas, ainda que de modo diferente.
Em trecho seguinte, o poeta moderno volta a fazer referência ao colega romântico, mas também incorpora duas canções populares:
Você sabe de onde eu venho?
E de uma Pátria que eu tenho
No bôjo do meu violão;
Que de viver em meu peito
Foi até tomando jeito
De um enorme coração.
Deixei lá atrás meu terreno,
Meu limão, meu limoeiro,
Meu pé de jacarandá,
Minha casa pequenina
Lá no alto da colina,
Onde canta o sabiá.
 O sabiá de Gonçalves Dias aparece, então, cantando não mais no alto de uma palmeira, mas no "Meu limão, meu limoeiro", próximo à "Casinha da Colina", duas músicas extremamente populares. Ou seja, Guilherme de Almeida não só escreveu uma "Canção" nacionalista, como usou referências que tocavam fundo nas lembranças afetivas do brasileiro comum: sucesso na certa! Tinha como não dar certo?


Para saber +
No site da Academia Brasileira de Letras (ABL) há duas boas biografias.
Guilherme de Almeida se tornou um acadêmico em 1930, recebendo justamente a cadeira n. 15 cujo patrono é Gonçalves Dias.
Aproveite e leia também os "Textos Escolhidos" para cada autor.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Como começa na realidade uma guerra?

Um dos trechos mais impactantes do livro Nada de novo no front é o diálogo entre os soldados e amigos a respeito dos motivos da guerra, após a visita do imperador alemão, o Kaiser Guilherme II, às tropas:

- Mas uma coisa eu gostaria de saber - diz Albert. Teria havido guerra se o Kaiser se tivesse oposto?

- Acredito que sim - afirma. Dizem que ele, na verdade, não a desejava.

- Bem, talvez ele sozinho não fosse suficiente, mas bastaria que umas vinte ou trinta pessoas no mundo tivessem dito "não".

- É provável - admito -, mas eram justamente essas pessoas que queriam a guerra.

- Pensando bem, é curioso - continua Kropp. Estamos aqui para defender nossa pátria. Mas os franceses também estão aqui para defender a deles. Quem tem razão?

- Talvez ambos esteja certos - digo, sem muita convicção.

- Sim - prossegue Albert, e vejo que ele quer me envolver -, mas nossos professores, sacerdotes e jornais dizem que só nós temos razão, e espero que seja verdade; mas os professores, sacerdotes e jornais franceses afirmam que a razão está do lado deles. Como é possível?

- Não sei - digo. - De qualquer maneira, o certo é que há guerra e que cada vez mais países aderem a ela.

Tjaden reaparece. Continua agitado e mete-se imediatamente na conversa, perguntando como começa na realidade uma guerra.

- Geralmente, é assim: um país ofende gravemente o outro - responde Albert, com um certo ar de superioridade.

Mas Tjaden faz-se de bobo e finge não compreender.

- Um país? Não entendo isso. Uma montanha na Alemanha não pode ofender uma montanha na França. Nem um rio, nem uma floresta, em um campo de trigo.

- Você é mesmo tão ignorante, ou nestá só fingindo? - pergunta Kropp, irritado. - Não quis dizer isto. Um povo insulta o outro...

- Então, não tenho nada a fazer aqui - responde Tjaden -, porque não me sinto ofendido!

- Bem, deixe que eu lhe diga uma coisa - declara Albert, com agressividade -, isto não se aplica a você, seu caipira.

- Mas, então, eu posso ir logo para casa! - replica Tjaden.

Todos começam a rir.

- Mas que burrice! Ele está se referindo ao povo em conjunto, isto é, ao Estado - grita Müller.

- Estado, Estado - diz Tjaden, estalando os dedos. - Polícia, impostos... é isto que vocês chama de Estado. Se se interessam por este Estado... podem ficar com ele, e bom proveito.

- Concordo - diz Kat. - É a primeira vez que diz alguma coisa certa, Tjaden; Estado não é pátria... há, na verdade, uma diferença entre eles.

- No entanto, estão ligados - observa Kropp. - Não pode haver pátria sem Estado.

- É verdade, mas pense um pouco; somos quase todos gente do povo. E, na França, a maioria das pessoas também é gente do povo: operários, trabalhadores e pequenos empregados. Por que, então, deveria um serralheiro ou um sapateiro francês nos agradir? Não, são só os governos. Antes de vir para a guerra, nunca tinha visto um francês; e deve ter ocorrido o mesmo com a maioria dos franceses em relação a nós. Pediram a sua opinião tanto quanto a nossa.

- Mas, então, para que serve a guerra? - indaga Tjaden.

Kat dá de ombros.

- Deve haver gente que tira proveito dela.

- Bem, eu não faço parte deles - ri Tjaden, irônico.

- Nem você, nem nenhum de nós aqui.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Guerra ou Paz?

A opção pela paz hoje em dia faz sentido para a maior parte das pessoas. Mesmo considerando que ainda fazemos a guerra de modo geral. Por mais que vivamos em um mundo violento optar pela não-violência não nos parece estranho. Mas não foi sempre assim e talvez nem sempre seja...
É comum vermos no cinema o heroísmo de soldados e as "virtudes" de uma guerra ou batalha. Filmes de guerra alcançam, em geral, grande sucesso. E antes disso, os livros também.
Em 1929 foi lançado na Alemanha talvez o primeiro livro realmente pacifista, responsável por retratar a I Guerra Mundial (1914-1918) como uma horrível carnificina, um ato sem sentido para quem luta e morre por uma ideia ou decisão tomada por pessoas que nunca chegariam perto dos campos de batalha. Este livro se chama Nada de novo no front de Erich Maria Remarque, um ex-soldado ferido três vezes na guerra. Tendo como base as memórias do autor o livro conta a história de Paul Bäumer, soldado de cerca de 20 anos que se alistou no exército por influência de seus professores e outros adultos, largando os estudos e os planos para o futuro.
O livro fez enorme sucesso na Alemanha e em outros países criticando a guerra e as pessoas que a justificavam como necessidade ou dever patriótico. Alguns anos depois os nazistas ordenaram a queima em praça pública do livro de Remarque por considerar que ofendia a honra dos soldados alemães, assim como cassaram a cidadania alemã do autor.
Apesar de ter sido transformado em filme em 1930 é uma outra produção pode ilustrar o mesmo contexto abordado no livro. O filme em questão é Feliz Natal, de 2005.




Para quem quiser o livro, há uma edição de bolso da L&PM com preço bem acessível.