Para os que ficaram interessados em conhecer mais do trabalho do Vik Muniz começa hoje, dia 2, uma exposição do artista no Instituto Tomie Ohtake. Só cuidado, não vá pensando que verá as obras resultantes do "Lixo Extraordinário". A exposição - de nome Relicário - traz outras obras, algumas do começo da carreira de Muniz.
Esta é a descrição feita por um crítico na Revista Rollingstone:
Um origami feito de uma só folha de papel; um crânio com nariz de palhaço; uma ampulheta com um tijolo dentro; um sarcófago feito de Tupperware; luvas de seis dedos; uma "Enciclopédia Britânica" de um só volume; uma pluma de mármore. Estes são alguns dos trabalhos que estão na exposição.
São obras repletas de ironia que tratam da identidade destes objetos em relação à sua função, sempre impregnadas de humor levado a sério. "Interessam-me espaços onde a lógica e o senso comum falham, criando oportunidade ao público para novas experiências", diz Vik Muniz.
A recriação de objetos cotidianos por meio de uma farta pesquisa material - do lixo aos materiais nobres - contribui para o amplo repertório de imitação ilusória do real construído pelo artista, conferindo-lhe especial notoriedade. O processo de sedução por meio desse grande cenário vem acalantado pelo humor, o elo final a captar o olhar do espectador.
Relicário, em São Paulo De terça a domingo, das 11h às 20h Até 24/4Instituto Tomie Ohtake - Av. Faria Lima, 201 (Entrada pela Rua Coropés)
Entrada GRATUITA
Informações: 11 2245-1900
A globalização não provoca apenas um aumento da circulação de mercadorias. Ela trasnforma a maneira com a qual nós representamos o mundo, as suas possibilidades, as fronteiras, o espaço, o tempo: ela estrutura as imaginações.
Após o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da chamada Guerra Fria a tecnologia nuclear virou vedete. Algo entre amada, respeitada e odiada, a energia nuclear - com fins pacíficos ou militares - marcou a segunda metade do século XX.
A corrida armamentista entre EUA e URSS fez com que ambos os países construíssem enormes arsenais nucleares. Os EUA, por exemplo, construíram (desde 1945) 66,5 mil armas nucleares de 100 tipos diferentes. Como era de se esperar, a tensão internacional alcançou um nível insuportável e em 1968 a ONU estabeleceu um Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares reunindo incialmente os 5 membros do Conselho de Segurança - EUA, URSS (depois Rússia), China, Reino Unido e França - todos detentores de armas nucleares. No entanto, França e China só ratificaram o tratado em 1992.
Pelos termos do tratado ficaria estabelecido um limite máximo de ogivas nucleares e ninguém poderia vender ou transferir armas deste tipo para outros países "não-nucleares". Desse modo, a ideia era afastar o fantasma da guerra nuclear generalizada, sem impedir o uso pacífico da tecnologia.
Uso este que tem sido alvo de inúmeras críticas entre ecologistas e mesmo pessoas com alguma memória. Em princípio a energia atômica para geração de energia elétrica foi aplaudida como uma tecnologia limpa e eficiente. No entanto, rapidamente se expôs o problema da água usada para o resfriamento dos reatores das usinas nucleares que é devolvida à natureza com alta temperatura, interferindo no meio ambiente. Porém o pior ainda viria no ano de 1986.
No dia 26 de abril de 1986 (fevereiro no nosso calendário) uma ação mal executada na Usina de Chernobyl, na Ucrânia, provocou a explosão de um dos reatores. Com a "ajuda" do vento a núvem tóxica atingiu boa parte da Europa, apesar de os efeitos mais nocivos terem acontecido na Ucrânia, Rússia e Bielarus. Depois disso, não só os reatores soviéticos foram alvo de críticas, mas toda usina nuclear foi colocada como suspeita diante da opinião pública mundial.
Em amarelo a principal área afetada, as demais receberam "restos" da núvem radioativa
A Alemanha acabou com todas as suas usinas (apesar de comprar energia da França, do outro lado da fronteira, produzida em usinas nucleares). No Brasil as críticas em relação à energia nuclear são apoiadas na convicção popular de que uma usina e uma bomba relógio são praticamente a mesma coisa. Este ano o acidente, ou catástrofe, de Chernobyl comemora 25 anos e a Ucrânia planeja abrir a usina desativada para visitação pública.
As imagens são de 2006. Narração em inglês.
O armamento do mundo pode ser evitado, o acidente poderia ser evitado, as mortes, enfim, poderiam ter sido evitadas. Só as sequelas não podem mais ser evitadas.
Leia +
Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. Texto integral AQUI
Novo tratado entre EUA e Rússia, assinado em 5 de fevereiro de 2011. Notícia AQUI
20 anos de Chernobyl. Notícia AQUI
25 anos de Chernobyl. Notícia AQUI
Um artista plástico conceituado com uma fixação - materiais recicláveis - e um propósito social em mente - modificar o mundo, mesmo que atingindo apenas poucas pessoas. Na outra ponta pessoas anônimas com uma imposição - viver da coleta de materiais recicláveis - e um objetivo em mente - sobreviver da melhor forma possível. Juntando as duas pontas tem-se o belo documentário Lixo extraordinário, filmado ao longo de três anos, tempo em que durou a ação de Vik Muniz no lixão de Gramacho, Duque de Caxias-RJ.
A verdade é que dificilmente este documentário poderia sair ruim. A proposta do artista brasileiro era ótima e contava com uma eficiente equipe de apoio, e as pessoas encontradas no lixão se mostraram personagens interessantíssimos: carismáticos, bem articulados, com histórias envolventes.
Este foi o filme que cerca de 130 alunos da 2a. e 3a. séries do Ensino Médio assistiram ontem em uma saída idealizada pela Profa. Vânia, de artes. Aparentemente os alunos gostaram do que viram e eu gostei do que ouvi deles. Alguns mais sensibilizados, outros mais impressionados... espero, apenas, que tenham se aberto a um mundo que definitivamente não é vivido por eles, mas ao qual não deixam de pertencer.
Uma breve reflexão
Fiquei um tempo pensando no porquê do documentário ser grande parte em inglês, mesmo quando o depoente era o artista brasileiro (radicado em Nova York), Vik Muniz. Vendo a versão em inglês do site promocional do documentário uma resposta começou a pintar. Quantas pessoas se atinge em inglês? Quantas pessoas dispostas a colaborar de algum modo se atinge em inglês?
Há um bocado de coerência nisso considerando o projeto idealizado pelo artista. Do contrário eu seria obrigado a pensar que o interesse brasileiro é menor que o internacional...
‘Paz para acabar com a paz’ Como país aliado, o Brasil participou da Conferência de 1919, após a Primeira Guerra Mundial, mas foram as grandes potências vencedoras que decidiram tudo
Por Eugênio Vargas Garcia, diplomata, professor titular do Instituto Rio Branco e autor de Entre América e Europa: a política externa brasileira na década de 1920. Brasília: Editora UnB/Funag, 2006
Exemplar em inglês do Tratado
A Galeria dos Espelhos do imponente Palácio de Versalhes, em Paris, estava completamente lotada. Era o dia 28 de junho de 1919, e estavam em jogo os destinos do mundo. Enquanto ministros, delegados e jornalistas disputavam espaço no salão, dois pálidos representantes da Alemanha eram conduzidos à pequena mesa onde um volumoso tratado os esperava. O silêncio abafou todos os murmúrios e o suspense não durou muito. Para alívio geral, os alemães, resignados, assinaram o documento. Do lado de fora, salvas de canhões comemoraram o esperado desfecho. A paz havia sido concluída. Mas que paz era essa?
O Tratado de Versalhes encerrava oficialmente os trabalhos da Conferência de Paz de Paris (1919-1920), convocada para deliberar sobre o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O Brasil, por ter participado do conflito (ver box), estava presente. No entanto, era um ator periférico. Os assuntos europeus centralizavam todas as atenções, como a concessão de independência a países da Europa Oriental (quais?) e a administração da Alemanha derrotada. Problemas concretos de outras regiões, como o equilíbrio de forças na Ásia ou a definição dos mandatos no Oriente Médio, tinham precedência sobre os temas de eventual interesse latino-americano.
Talvez nenhum tema (ou instituição ou aspecto sócio-econômico) seja mais importante para a história do Brasil que a escravidão. No entanto, não é algo tão simples como às vezes parece. Antigamente quase tudo era resumível em "africanos trazidos para o Brasil para trabalhar na agricultura - cana e depois café - vivendo em senzalas". Porém, a cada ano os historiadores chegam a um quadro mais complexo, destacando particularidades regionais, diferenças quanto ao tipo de trabalho, versatilidade dos escravos, ambiente rural versus urbano, componentes africanos também particulares influindo nas relações escravistas, etc.
Tenho uma grande amiga, Ynaê Lopes dos Santos, que é especialista em escravidão urbana no Rio de Janeiro e, agora no doutorado, pretende comparar este universo carioca à realidade de Havana (Cuba). Na época em que ela terminou o mestrado, em 2007, deu uma entrevista para a Agência USP de Notícias. Abaixo seguem alguns trechos comentados.
“Os escravos urbanos tinham duas formas básicas de morar. Em alguns casos, residiam nas mesmas casas dos senhores, dormindo muitas vezes em esteiras nos corredores, sótãos ou porões. Porém, segundo documentos da época, alguns deles moravam longe dos seus proprietários, em casas alugadas, casebres e cortiços: era o chamado morar sobre si”
Escravos e suas atividades urbanas
Em geral os senhores urbanos tinham poucos escravos, de dois a três, e o que determinava onde ou como os cativos iriam morar dependia da relação estabelecida com seus proprietários.
Na cidade, os senhores colocavam grande parte dos negros escravizados para trabalhar como “escravos ao ganho”, exercendo desde funções mais qualificadas, como barbeiros, sapateiros e artesãos, até trabalhos braçais. “Muitos também executavam as tarefas domésticas. Além de seu próprio sustento escravo, parte dos rendimentos era destinada ao senhor para pagamento da diária previamente estipulada”, conta Ynaê.
Em diversas situações, eles passavam alguns dias fora da casa trabalhando e, após o período combinado com o proprietário, voltavam com o dinheiro. “Em alguns casos a única fonte de sustento da casa era obtida por meio dos escravos ao ganho, principalmente nas famílias mais pobres ou quando os proprietários eram mulheres ou viúvas.”
Segundo ela, dentre os mais de mil pedidos de licença [Pedidos de Licenças para Escravos saírem ao Ganho] existentes, há um que comprova claramente a prática do morar sobre si, ao discriminar endereços diferentes para o senhor e seu cativo.
Segundo Ynaê Lopes dos Santos o "morar sobre si" foi muito difundido na capital do Império, ao ponto de muitos casarões terem se transformado em cortiços de escravos. Porém, ela mesma alerta, isto não implicava em uma escravidão mais suave apenas por não existir o espaço da senzala ou uma aceitação da escravidão pelos escravizados. A ausência de revoltas escravas no Rio de Janeiro não significa passividade.
Pelourinho - o castigo público e exemplar
“Na capital do Brasil, a resistência escrava e a luta pela liberdade foram, fundamentalmente, individuais, ainda que contassem com laços e redes de solidariedade. Assim como a alforria, o morar sobre si acabou sendo prática costumeira na cidade: durante todo o tempo, os escravos precisavam negociar com seus senhores para alargar sua autonomia, aproveitando para isso as mais diferentes situações”.
A posição estadunidense até a Primeira Guerra Mundial era de isolacionismo em relação à Europa. Ou, seguindo a orientação de George Washington, um dos chamados "pais" da independência dos EUA, os problemas europeus deveriam ficar entre os europeus. Depois, no começo do século XIX este posicionamento foi atualizado pela Doutrina Monroe. O presidente James Monroe em 1823 afirmou:
Julgamos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência européia (…)
Não só os problemas europeus deveriam ficar na Europa, como também a América passaria a ser apenas dos americanos. Uma versão polida da máxima "cada macaco no seu galho" aplicado ao mundo da política internacional.
Mas os EUA do início do século XIX não eram os mesmo do final do mesmo século e muito menos do começo do século XX. A consolidação do território e suas fronteiras somado a um incrível processo de industrialização colocaram os EUA em condições cada vez melhores para concorrer com as grandes potências industriais da época: Inglaterra, França e Alemanha. Com a Guerra, então, o cenário ficou ainda mais positivo. Todo mundo oferecendo até a última gota de sangue no conflito armado enquanto os estadunidenses poderiam usar toda sua capacidade produtiva para abastecer os mercados europeu e americano (latino-americano também).
Não confunda este Wilson...
Não por acaso que o presidente Woodrow Wilson, que governou de 1913 a 1921, posicionou-se a favor da entrada dos EUA na Primeira Guerra, a fim de aproveitar o momento e colocar seu país no tabuleiro das relações internacionais. Porém ele não era uma voz unânime.
...com este Wilson
Terminado o conflito Wilson ofereceu ao Congresso estadunidense sua proposta de tratado de paz para levar à Europa. No entanto o texto foi recusado da primeira vez, pois a maioria considerou que feria o princípio de isolacionismo tão defendido nas décadas anteriores. Depois de serem propostas alterações, o texto passou e foi levado à mesa de discussões na europeia.
Basicamente o texto levado é este abaixo. Já o que vingou das boas intensões de Wilson é bem pouco. Em todo caso, ele é considerado o "pai" da Liga das Nações, órgão internacional que antecede a ONU.
1) Inaugurar pactos de paz, depois dos quais não deverá haver acordos diplomáticos secretos, mas sim diplomacia franca e sob os olhos públicos;
2) Liberdade absoluta de navegação nos mares e águas fora do território nacional, tanto na paz quanto na guerra, com exceção dos mares fechados completamente ou em parte por ação internacional em cumprimento de pactos internacionais;
3) Abolição, na medida do possível, de todas as barreiras econômicas entre os países e o estabelecimento de uma igualdade das condições de comércio entre todas as nações que consentem com a paz e com a associação multilateral;
4) Garantias adequadas da redução dos armamentos nacionais até o menor nível necessário para garantir a segurança nacional;
5) Um reajuste livre, aberto e absolutamente imparcial da política colonialista, baseado na observação estrita do princípio de que a soberania dos interesses das populações colonizadas deve ter o mesmo peso dos pedidos equiparáveis das nações colonizadoras;
6) Retirada dos Exércitos do território russo e solução de todas as questões envolvendo a Rússia, visando assegurar melhor cooperação com outras nações do mundo. O tratamento dispensado à Rússia por suas nações irmãs será o teste de sua boa vontade, da compreensão de suas necessidades como distintas de seus próprios interesses e de sua simpatia inteligente e altruísta;
7) Bélgica, o mundo inteiro concordará, precisa ser restaurada, sem qualquer tentativa de limitar sua soberania a qual ela tem direito assim como as outras nações livres;
8) Todo território francês deve ser libertado e as partes invadidas restauradas. O mal feito à França pela Prússia, em 1871, na questão da Alsácia e Lorena, deve ser desfeito para que a paz possa ser garantida mais uma vez, no interesse de todos;
9) Reajuste das fronteiras italianas, respeitando linhas reconhecidas de nacionalidade;
10) Reconhecimento do direito ao desenvolvimento autônomo dos povos da Áustria-Hungria, cujo lugar entre as nações queremos ver assegurado e salvaguardado;
11) Retirada das tropas estrangeiras da Romênia, da Sérvia e de Montenegro, restauração dos territórios invadidos e o direito de acesso ao mar para a Sérvia;
12) Reconhecimento da autonomia da parte da Turquia dentro do Império Otomano e a abertura permanente do estreito de Dardanelos como passagem livre aos navios e ao comércio de todas as nações, sob garantias internacionais;
13) Independência da Polônia, incluindo os territórios habitados por população polonesa, que devem ter acesso seguro e livre ao mar;
14) Criação de uma associação geral sob pactos específicos para o propósito de fornecer garantias mútuas de independência política e integridade territorial dos grandes e pequenos Estados.
Poucas manifestações culturais são tão marcantes quanto a música. Sem grande dificuldade podemos identificar - de modo genérico, é verdade - uma determinada cultura pela sonoridade de sua música. A cítara indiana, o violino entre os ciganos, a percussão de raiz africana... Porém a musicalidade é algo muito vivo, fluido, em constante mutação, ainda mais nos dias de hoje. Algumas manifestações musicais já desapareceram, outras tantas surgiram e talvez venha a sumir também.
No caso do Brasil a música disputa, ao meu ver, o posto de ícone identitário junto com o futebol. Não importa qual estilo musical você prefere, mas via de regra o brasileiro de orgulha em seu patriotismo meio heterodoxo com a diversidade musical brasileira. Samba, bossa, MPB, pagode, axé, coco, xote, etc, isso sem contar nos estilos que vieram de fora e já parecem nativos.
Eu, por exemplo, adoro rock. Mas como sou do interior de São Paulo tenho minhas raízes caipiras e, portanto, gosto muito de viola. Não aquele instrumento que lembra um violino, e sim aquele "violão" menorzinho de 10 cordas em pares que fez a fama das Duplas Caipiras e das modas de viola. É uma sonoridade e um jeito de contar/cantar a vida bem particular. Instrumento antigo (pelo menos 500 anos de existência, chutando baixo) era o som típico do trovadorismo português visto nas aulas de literatura e foi dos primeiros instrumentos populares da América Portuguesa. Não por acaso marca presença em praticamente todo o território nacional, especialmente nas regiões mais rurais.
Bom, mas tudo isso para dizer que acabei de ouvir um CD interessantíssimo de dois violeiros que resolveram tocar rock com violas. E ficou bom!!! Aliás, infinitamente melhor que aquele pessoal que resolve tocar Stairway to Heaven no piano ou coisa parecida.
O fanfarrão do Ozzy provavelmente aprovaria, mas antes perguntaria a opinião da Sharon!
Ontem, na minha patética tentativa de assistir todos os filmes que estão concorrendo ao Oscar, fui ver "O Discurso do Rei". A quantidade de prêmios que já ganhou (e ainda pode ganhar) e as polêmicas geradas aumentaram a espectativa, mas o filme não decepcionou. No entanto, falar da qualidade das atuações ou da beleza do filme é totalmente desnecessário aqui. Há um monte de críticas em todos os jornais e sites de cinema, portanto vou economizar minhas palavras.
Só gostaria de chamar a atenção para dois tópicos interessantes, duas das polêmicas que considerei mais interessantes.
Uma é a polêmica causada pelos historiadores sempre que aparece um filme com contexto histórico. Digo com "contexto" porque não considero este filme exatamente histórico, pois a questão maior é o drama pessoal do Rei George VI e sua gagueira que diante de suas resposabilidade como homem público praticamente o impediam de reinar. Porém, o que gerou discordâncias sérias foi o fato de o filme atenuar a simpatia pelo nazismo de David, irmão mais velho e primeiro herdeiro do trono de George V. Aspecto bem delicado e historicamente muito interessante. Afinal, lança luzes sobre a relativa aceitação velada que o regime de Hitler teve entre os conservadores dos demais países europeus e que acabaram fechando os olhos para o avanço nazista. Quando se deram conta havia uma guerra armada diante de seus olhos.
Outra polêmica, bem mais suave, diz respeito à gagueira do rei. No filme ela é encarada apenas como uma questão psicológica, no entanto hoje conhece-se fatores genéticos diretamente ligados a este problema da fala. De todo modo não se pode dizer que se trata de uma erro do diretor ou do roteirista, na década de 1930 não se fazia ideia das causas da gagueira. Os fonoaudiólogos e demais especialistas que cuidam da fala estão felizes como nunca ao ver um tema tão pouco comentado sendo visto e discutido graças ao filme.