Mostrando postagens com marcador Samba. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Samba. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de junho de 2011

2 sambas e 2 exercícios

O samba talvez seja uma das manifestações culturais brasileiras mais identificada com a identidade nacional. Mas isso não se deu naturalmente, por acaso, e sim pelo uso sistemático do Estado Novo de Getúlio Vargas entre 1937 e 1845. Buscando atingir a população brasileira e, ao mesmo tempo, desejando moldar um caráter nacional, o governo varguista usou-se do samba promovendo-o a ritmo tipicamente nacional.
Esta leitura não é recente e atualmente todo livro de história aborda esta temática. Não é de se estranhar, portanto, que o binômio Vargas-Samba esteja presente nos vestibulares. Vejamos dois exercícios muito curiosos.

1. Fuvest - 2000
Com meu chapéu de lado, tamanco arrastando
Lenço no pescoço, navalha no bolso
Eu passo gingando, provoco e desafio
Eu tenho orgulho de ser vadio.
(Wilson Batista, 1933)
Quem trabalha é quem tem razão
Eu digo e não tenho medo de errar
o bonde de São Januário
leva mais um operário
sou eu que vou trabalhar.
(Wilson Batista/Ataulfo Alves, 1940)
Da comparação entre as letras desses sambas, depreende-se que:

(A) as mudanças visíveis nos conteúdos dos sambas sugerem adesão à ideologia do Estado Novo.
(B) as mudanças significativas de conteúdo decorrem da valorização do trabalho industrial no Rio de Janeiro.
(C) as datas das composições correspondem ao mesmo período do governo de Vargas, indicando que as mudanças são mera coincidência.
(D) as mudanças das letras não são significativas, já que ambas as composições tratam de problemas de gente pobre e humilde.
(E) as letras das músicas estão distantes dos interesses políticos do Estado Novo, que não se preocupava em fazer propaganda.

Comentário: A questão não é nem um pouco difícil, contato que se tome alguns cuidados. Primeiro, é fundamental lembrar que a chamada "Era Vargas" compreende 3 períodos bem distintos: Governo Provisório (1930-1934), Governo Constitucional (1934-1937) e Estado Novo (1937-1945). Em segundo lugar, deve-se levar em consideração que a ditadura do Estado Novo possuía inspirações fascistas e Vargas buscou construir sua imagem como líder nacional, conciliador e "pai dos pobres". A Propaganda oficial também serviu para construir uma nova imagem do Brasil e disseminar o que seria o caráter nacional calcado no trabalho e no patriotismo. E é neste ponto específico que o samba servirá ao Estado Novo.
Resposta: A

2. UFMG - 2008
Leia estas duas letras de samba, comparando-as:
"Eu passo gingando
Provoco e desafio
Eu tenho orgulho
De ser tão vadio.
Sei que eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê."
(Lenço no pescoço,1933, de Wilson Batista)
"Quem trabalha é que tem razão
Eu digo e não tenho medo de errar
O bonde São Januário
Leva mais um operário:
Sou eu que vou trabalhar.
Antigamente eu não tinha juízo
Mas resolvi garantir meu futuro
Vejam vocês:
Sou feliz, vivo muito bem
A boemia não dá camisa a ninguém
É, digo bem."
(O bonde de São Januário, 1940, de Wilson Batista e Ataulfo Alves)
A partir dessa leitura comparativa e considerando-se o período em que foram escritas, bem como outros conhecimentos sobre o assunto, é CORRETO afirmar que, nas duas letras, se torna evidente

(A) o aumento do poder de compra dos salários no período, com a garantia da estabilidade da moeda pelo Governo.
(B) a liberdade criativa do artista popular, o que possibilitava um debate aberto de temas polêmicos da realidade nacional.
(C) a adequação da produção musical urbana ao contexto político, caracterizado pelo crescente intervencionismo estatal.
(D) o crescimento da capacidade de poupança, como conseqüência do poder de pressão de sindicatos autônomos.

Comentário: A primeira constatação que fazemos é que os formuladores dos vestibulares se leem: oito anos depois o pessoal da UFMG resolveu requentar as mesmas músicas usadas pela Fuvest. Ou seja, mais um ponto para quem se exercita resolvendo vestibulares antigos. Mas a questão em si parece-me mais fácil que a da Fuvest, pois é bem mais genérica no que diz respeito à cronologia histórica, exigindo quase que apenas leitura e interpretação. Considerando que Lenço no pescoço se localiza temporalmente no Governo Provisório de Vargas que, apesar de não ser democrático, estava longe de ser a ditadura do Estado Novo, e que Bonde de São Januário, por sua vez, está inscrita em pleno regime autoritário estadonovista, não há muito o que dizer. Fica mais fácil se você trocar "produção musical urbana" por "samba" e "intervencionismo estatal" por "propaganda oficial e censura".
Resposta: C

Um pouco da história do samba

Eu queria postar por aqui um pouco sobre o samba e sua história, afinal tratamos de modo um pouco pontual em sala. O samba acabou entrando nos conteúdos de aula não só por seu caráter identitário, ligado a um "espírito nacional", mas porque foi adotado pelo Estado Novo de Getúlio Vargas. No entanto este ritmo musical não surge nem acaba com Vargas, portanto é fundamental contemplar um horizonte mais amplo.
Como sabia que o aluno Matheus Mans Dametto (3a. série) é um apreciador do samba, pedi que ele redigisse um texto para o blog. Segue, então, a segunda contribuição de um aluno.


Uma reunião de músicos e compositores, em 1917, na casa da Tia Ciata, levou à composição do primeiro samba a ser registrado e gravado. O sambista Donga em parceria com Mauro de Almeida foram os sambistas responsáveis pela composição da memorável “Pelo Telefone” e que desencadeou uma série de outras composições deste novo ritmo, resultado de uma mistura de culturas africanas.
O sucesso que tal música causou na população pobre e suburbana da ‘cidade maravilhosa’ foi tamanho que novos sambistas e compositores deste novo estilo foram surgindo. Porém, este estilo musical não era bem visto pelas autoridades, sendo que quem fosse pego batucando nas ruas, era levado direto à delegacia da cidade. Foi só na década de 1940 que o samba foi aceito, promovendo um povo mais fiel ao Estado devido ao patriotismo embutido no novo ritmo nacional, sendo que a partir daí novos sambistas surgiram e os pioneiros se consagraram, a exemplo de Sinhô e Heitor dos Prazeres.
Esses sambistas começaram a se encontrar nas ‘noites’ cariocas e criar grandes grupos de apoiadores do novo estilo musical. Estavam criadas as escolas de samba. Caracterizadas pelo ambiente simples e pobre das recém formadas favelas do Rio de Janeiro, elas foram o ponto de partida para a disseminação do ritmo pelo resto do território nacional. Porém, os morros cariocas continuavam carregando o estandarte de grandes sambistas do país.
As músicas, não mais apenas sambas-enredos ou apenas canções para se tocar nas rodas de samba, foram aprovadas pelo governo de Getúlio Vargas e retratadas como identidade nacional. Aspirantes à músicos começaram a aparecer de outros estados e se apresentarem em rádios. Jovens cantores como Ataulfo Alves, Ary Barroso e Lamartine Babo se consagravam como sambistas e músicos, e não apenas como os malandros do Rio.
Na década de 1960, Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini em São Paulo mostravam que o samba poderia nascer em outros estados e que São Paulo não era “o túmulo do samba”, como dito por Vinicius de Moraes. Cartola e Paulinho da Viola, no Rio de Janeiro, voltavam a reaproximar o samba carioca dos morros nos quais teve origem.
Nos “anos de chumbo”, o samba foi um dos responsáveis pela expressão de opinião da população brasileira. Jovens compositores, como Chico Buarque e Caetano Veloso, compunham obras que atentavam contra a repressão dos militares brasileiros. Sambas como “Vai Passar” e “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” são exemplos claros da insatisfação dos músicos.
Os bambas de antigamente ainda faziam relativo sucesso, apesar de a maioria ter sido esmagada pelos novos ritmos brasileiros e internacionais que chegavam ao país. Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, Cartola, Jamelão, entre outros, mostravam que ainda tinham “lenha para queimar” e o samba era revitalizado com a ajuda dos novos expoentes do samba e da Bossa Nova, como Caetano, Gil e Chico. Sendo que, apesar de modificado, está vivo até hoje como ritmo musical genuinamente brasileiro.