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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Os imigrantes, São Paulo e você

Na primeira semana de aula o que sempre chama minha atenção são os nomes dos alunos. Na verdade, os sobrenomes. Por mais que eu considere que se exagera um pouco a raiz imigrante de São Paulo, é fato que muitas das famílias paulistanas são alienígenas, como se dizia muito antigamente. E isso é ainda mais marcante no Ipiranga.
Então, me lembrei que há alguns meses o Museu da Imigração do Estado de São Paulo lançou seu novo site com parte do seu acervo digitalizado: fotografias, jornais, mapas e os Registros de Matrícula. Esses registros contém os nomes de todos os imigrantes que passaram pela Hospedaria, vindos de Santos, antes de seguirem para alguma fazenda no interior do Estado ou se mudarem para alguma casa na cidade.


Nem todo imigrante passou pela Hospedaria, mas se sua família entrou por Santos na virada do século XIX para o XX há uma grande chance de achar o nome de um bisavô ou parente nesses registros.
Vale um passeio.




P.S. Antes que digam que estou forçando a mão, vejam o dicionário:
Alienígena: 1. que ou quem é natural de outro país; estrangeiro, forasteiro 2. Derivação: sentido figurado. Que ou o que pertence a outros mundos


terça-feira, 28 de junho de 2011

O café, uma cidade e seu teatro

 Na virada do século XX, São Paulo era uma cidade em crescimento acelerado, mas ainda assim longe de ser uma metrópole. A capital da República, Rio de Janeiro, era de fato uma cidade muito mais populosa e... cosmopolita. Capital e sede da Corte desde a chegada a Família Real Portuguesa em 1808, o Rio era a porta de entrada de legações diplomáticas e produtos estrangeiros, uma conexão direta com a Europa. Esta “vocação” continuou com a República, apesar da descentralização que vinha ocorrendo. Não por acaso via-se no Rio a chamada belle époque tropical: moda, literatura, companhias de teatro e ópera vindas Europa tinham acolhida certa.
Se o Rio de Janeiro havia abrigado a monarquia, em São Paulo vivia outro rei – o café – e este tinha muito mais poder. Metáforas à parte, o poderio econômico do estado de São Paulo era fruto da crescente produção e preços favoráveis do café no mercado internacional, o que concedia aos paulistas uma proeminência política ímpar. Feito o golpe (com auxílio dos militares) a Primeira República seria inevitavelmente a dos cafeicultores.
Viaduto do Chá, 1929
A florescente “cidade do café”, capital financeira de todo o complexo cafeeiro do interior do estado e que iniciava um processo de industrialização, necessitava de certos aparelhos urbanos que condissessem com a riqueza de seus mandatários, ou ainda, os ricos cafeicultores precisavam de uma cidade coerente com a imagem que eles tinham de si próprios. Ou seja, era urgente a transformação daquela cidade de cerca de 240 mil habitantes em uma metrópole de verdade. Entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do XX, São Paulo passou por profundas transformações urbanas: linhas de bonde, obras de saneamento, alargamento de ruas dando lugar a avenidas, criação de novos bairros, edifícios públicos, comerciais, residenciais (todos ostentando certa monumentalidade) tomaram conta da paisagem da cidade.
Vista do Vale do Anhangabaú com Teatro Municipal à direita, 1920
É neste contexto que veríamos a construção de um dos cartões postais da cidade (à época e ainda hoje): o Teatro Municipal. São Paulo possuía teatros, um tanto acanhados, é verdade, mas o Novo Teatro São José era bem maior que os demais. No entanto, não havia um capaz de abrigar concertos de ópera e música erudita, nem tampouco espelhar o requinte que a elite paulistana esperava exibir. Desse modo, em 1903 começou-se a construir o que seria o Teatro Municipal, na mesma colina onde antes ficava o São José. O projeto e desenho de Claudio e Domiziano Rossi foram executados pelo escritório do renomado engenheiro-arquiteto Ramos de Azevedo, o construtor predileto dos barões do café. Em estilo eclético e inspirado na ópera de Paris, o Theatro (como então se grafava) ocupava o alto de uma das áreas de lazer mais concorridas da época, o Vale do Anhangabaú, no coração da cidade.
A inauguração ocorreu em 1911, há exatos 100, e inscreveu São Paulo no circuito das companhias europeias de ópera. No entanto, o maior espetáculo recebido pelo Teatro Municipal pretendia justamente romper com o tradicionalismo e com as eternas referências à Europa: a Semana de Arte Moderna de 1922. No mesmo ano se comemorou o centenário da Independência do Brasil com festa também em São Paulo, mas mais ao sul da cidade, no Museu do Ipiranga. Esta não pretendia romper com nada, pelo contrário, pretendia-se reforçar o caráter fundador de São Paulo na formação do Brasil, como quem diz “a cidade do café é também o berço do Brasil”. Uma bela construção! Seja nesta festa mais tradicional, seja na semana que se pretendia vanguardista, a elite ligada ao café parecia comemorar seu vigor econômico, político e cultural. E eles nem imaginavam que ao fim daquela década veriam a derrocada dos preços do café e uma sutil, mas significativa, mudança de rumos na política nacional. No entanto, seus monumentos ainda persistem, a memória que construíram de si continua de pé, presente.



Resta ainda um aviso a fazer: a história dos sucessos da oligarquia do café construída por ela mesma não é a História do Brasil República, e nem mesmo a História de São Paulo.